Inocência

Ela não estava interessada a se declinar para constatação alguma, mas a menina sentia algo novo ou estranhamente diferente, tanto faz.

Como pode, como pode… Ela agia assim com uma apatia a tudo que antes era algo novo, ou no mínimo curioso.

Sua imaginação inigualável, permitia que o mundo não fosse tão entediante… preservava sua inocência como algo sagrado, pois se sentia bem consigo mesma… era muito fácil ser ela mesma em estado de inocência.

Entretanto, não se engane… ela não via o mundo cor-de-rosa, mas o via cruamente, despido, vulnerável e terrível. Seus olhos profundos observavam bem o que se passava ao seu redor, mas ela sempre vivia de modo instintivo… como um gato inocente que é apenas um gato inocente… Seu olhar estava mudando e talvez (só para constar/ ou deixar claro)… talvez ela estivesse cogitando algo que mudaria para sempre o seu jeito de viver a vida.

Venha comigo! Você consegue vê-la?! É uma tarde de inverno, lá está ela deitada na calçada com um olhar apático que não a pertencia… seus amiguinhos querem brincar, mas não decidiram (ainda) qual seria a brincadeira.

Quantos anos ela deve ter? Penso que uns 13 anos… talvez menos!

Enquanto a turma resolvia, ela pensava…“Eu não quero mais brincar. Não tem graça mais ver as formigas trabalharem e nem ficar olhando para o céu e tentar descobrir figuras nas nuvens…”

Algo a estava preocupando, não era possível continuar de mãos dadas com a criança inocente, estava com muito medo, uma dor está se instalando no meu peito, estou angustiada… tenho que ser forte e contar comigo mesma, preciso estar atenta… sempre!

É possível ver seu semblante triste, entendo as reais circunstâncias que a cercavam. O mundo era como um guerreiro cruel e lutador, não quero que machuque a minha criança frágil e inocente.

Não era mais possível ser simples e leve. Era hora de se tornar uma guerreira também… forte e corajosa, porque é assim que tem que ser.

Não sei se ela chorou, só sei que algo dentro dela mudou… Veja o seu olhar! Está perdido. E aquela pequena chave em suas mão? Não me recordo direito…

Eu queria poder se aproximar dela e a impedi-la, mas isso seria contra as regras. Eu a vejo se levantar e dizer que não ia mais brincar. Venha comigo, vamos atrás dela!… Ela caminha pesarosamente, mas firme e decidida, sempre de cabeça erguida, o que alguns confundem com petulância, talvez o termo mais apropriado fosse “defesa”.

Pega na mão da menininha tão pequenina… seus olhinhos pretinhos de jabuticabas sorriem inocentemente, ela abre a porta do seu coração e no lugar mais escuro e sombrio encontra um quartinho frio e triste. Vejo olhar de dúvidas na criança e medo se instalando… “Por favor, entre querida! Aqui será a sua casa, agora! Quero que saiba que este lugar chama se Proteção. Você ficará bem, confie em mim… Eu sempre virei para visitá-la, não vou abandoná-la, mas não posso ficar… tenho muitas coisas a fazer. Você ficará segura, seja forte… eu volto logo.”

Mas não voltou…

Ainda ouço a chave virando e os gritos da criancinha no escuro, a menina não chora… engole o choro… “É a coisa certa a se fazer!” Ouvi, de repente um silêncio cortante e a menina acreditou por longos anos que tinha feito a coisa certa. Crescer era preciso, mais preciso que crescer era se tornar forte e autossuficiente.

Vamos embora!… Sabemos que um dia… ela vai voltar e terá que abrir a porta, porque talvez “a coisa certa a se fazer” nem sempre é uma verdade absoluta, certezas são raras.

Autora: Paula Gouveia


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