Desespero

Foto by Pinterest

Era noite de inverno, a casa está em silêncio e iluminada apenas por uma única vela acesa no centro de uma pequena mesa de madeira. Não há energia elétrica por falta de pagamento. O pai foi trabalhar em outro Estado, pois não conseguia emprego naquela cidadezinha. Não tem comida na despensa e nem na geladeira para fazer.

Vejo a tensão e o medo crescer… o menininho de seis anos pede leite para a mãe, está com fome. Meu irmão do meio e eu nos olhamos, aquele olhar que só nós dois sabemos… olhar de tristeza e insegurança.

A mãe pede para o menininho ficar quieto, mas ele insiste que está com fome. Dá para ver em seu rosto branco e cabelos negros o desespero de uma mãe impotente. Talvez você pergunte, mas onde estava o seu Deus naquele momento? Naquele dia eu não teria uma resposta de imediato.

O menininho começa a choramingar e a mãe tinha um olhar que beirava a loucura. Quem a julgaria de qualquer insanidade? Quem julgaria uma mãe que ama seus filhos, mas não consegue dar o pão daquela noite?

Sinto a tensão aumentar, ouço o choro do menininho a gritar: “Eu tô com fome, eu quero leite’. Agora estamos todos sentados à mesa, minha mãe em uma ponta, eu do lado esquerdo dela e o meu irmão na outra ponta. Meu irmãozinho caçula se aproxima a esgoelar… vejo sob a luz da vela acesa, as expressões de angústia e desespero no rosto daquela mãe.

De repente, um tapa estridente no rosto do menininho, um susto, o medo se instala, junto com um silêncio aterrorizador. Eu não posso julgá-la e nem você que está lendo poderá julgá-la. Imediatamente, ela abraça o menininho assustado, pede desculpas e o coloca em seu colo. Ele está triste e amuadinho, penso que mais assustado do que com fome, agora.

Eu sei que ela quer chorar, mas talvez não seja o momento. Não me recordo se ela chorou, mas lembro que ela pediu para darmos as mãos e ainda consigo ouvir cada palavra da sua oração em voz baixa e embargada: “Deus, por favor! Não deixe que os meus filhos durmam de barriga vazia esta noite. Amém”.

Sim, Deus existe! Ele estava como sempre esteve conosco. Ele se importa quando ninguém mais se importa. Ele ouve a oração do aflito e cuida dos seus filhos.

Após a oração alguém bate à porta… Agora, estou aqui sentada diante da refeição que acabei de preparar para mim. Fecho os olhos, sinto a atmosfera daquele lugar. Lembro-me que naquela noite Deus não deixou que dormíssemos de barriga vazia. Venha, observe daqui do meu quarto! A vizinha bate à porta e diz: “Olha, senti no meu coração de trazer para vocês essa refeição que preparei”. Ainda lembro do sabor daquele arroz com feijão, bife acebolado e salada de tomate. Além disso, ela também trouxe um canecão com leite fresco.

Este não foi último momento desafiador, nem o único… houve muitos outros momentos assim. Sim, dormimos com fome outras vezes, mas em todos esses momentos, fomos mais que vencedores. Talvez saber disso te cause confusão e desconforto, não vou suavizar para você. Crer e ter fé em Deus, não nos isenta de enfrentarmos dificuldades e injustiças, mas nos prepara para seguirmos em frente agindo com Honra diante das batalhas da Vida.

Autora: Paula Gouveia


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s