Assombração

Foto by Pinterest

Ela nunca tivera a oportunidade de ter um quarto só seu até os oito anos, mas ocorreu uma oportunidade, a mudança de casa. A casa não era melhor que a atual, era antiga, velha, de madeira e um tanto sombria, mas era grande e cada um teria o seu próprio quarto.

O quarto era simples, mas decorado a sua maneira… privacidade!!! O seu quarto ficava no lado oposto do quarto dos pais e do quarto do seu irmão, um pouco isolado, mas isso não era problema, ela era corajosa… bem, era o que pensava… estava feliz, era o bastante.

No entanto, a alegria durou pouco… duas noites, talvez. O motivo era sinistro, a luz acendia sozinha e depois da meia-noite. Por que tinha que ser depois da meia-noite? O interruptor ficava do lado sua cama, longe da porta, praticamente um pouco acima da sua cabeça. Não pode ser, não pode acender sozinho. Afinal que tipo de interruptor é esse, meu Deus?

Então no meio da noite a luz acendeu! Olhou o relógio… meia-noite! O que fazer? Será a sua imaginação apurada? Apagou a luz, oras!! O medo começou a crescer e tomar forma, cobriu-se da cabeça aos pés e fazia todas as orações possíveis. Está certo que até hoje a casa era esquisita, não sei ao certo, mas a luz acendeu de novo poucos minutos depois, ela apagou a luz, voltou para debaixo da coberta e orava em desespero: “meu Deus, por favor, que eu não veja nada, por favor… por favor”- repetia a mesma oração até dormir.

Ao acordar, certifiquei-me que a luz estava apagada… e estava de fato! Será que é uma assombração? “Essa casa me causa arrepios. Ai, meu Deus não… não quero pensar nisso”, murmurou baixinho. Corri até o meu pai e relatei os fatos com tamanha precisão para convencê-lo. O pai era um homem corajoso e incrédulo, disse que era bobagem e que tudo era fruto da minha imaginação: “Você assiste TV demais”, sentenciou irritado com a minha fraqueza de criança.

Ela não ligou nenhum um pouco para a indiferença dele e implorou para que verificasse o interruptor, talvez ficaria mais feliz se tal fenômeno fosse explicado. O pai dela não era nenhum técnico de elétrica, mas era um homem muito sabido. Era o tipo curioso que sempre provava com seu jeito de agir que tudo podia ser aprendido: “Tudo normal, filha! Não precisa se preocupar, não tem nada de errado no interruptor”, disse concluindo sua análise.

A noite chega naquele dia, o medo aumenta, sentia a respiração acelerada, as mãozinhas transpiravam, sentia-se em estado de alerta. Muitas orações foram feitas, penso que Deus devia olhar pra ela com bondade e achava graça da sua inocência enquanto fazia suas orações, como se a repetição fosse convencer a Deus, ou será que ela queria se convencer de precisava confiar?

“Por favor, Deus que eu não veja nada! Por favor… por favor! Que eu não veja nada… por favor… por favor”…, e foi repetindo até adormecer com a cabeça e o corpo todo coberto. No meio da noite, ao se virar na cama… uma claridade… A luz do quarto estava acesa!! De novo!! Quem acendeu? “Não, não, não, Deus”… Olha o relógio, passa da meia-noite!

“Não, não, não, não Deus! Meu pai disse que está tudo certo”, falou bem baixinho. Apagou a luz. Cobriu a cabeça e as orações intensificaram: “Deus por favor, por favor, por favor que eu não veja nada”. Ver, o que menina? Está com medo de ver o quê? “Se eu levantar e chamar meu pai, talvez leve uma surra por essa bobagem, ele vai ficar muito bravo”, refletiu a contra gosto. “Você é corajosa, menina! Ai, meu coraçãozinho! Resista!” Dormi, cochilei, nem sei ao certo. Não, não, não, não! A luz estava acesa de novo!!

Ela deu um pulo da cama e correu armando um berrero, assustando a mãe e deixando o pai furioso. Tentei explicar entre o choro e os soluços, o pai fez um sermão e disse que iria orar por minha alma. Eu deixei ele orar, mas ao terminar a oração me recusei a voltar para o quarto. Pobre, criatura atormentada? Por que não usava a própria bravura que a fazia enfrentar a ordem autoritária do pai? O que uma assombração poderia fazer?

Fato é que naquela mesma noite a menina desistiu do quarto e decidiu voltar a dividir o quarto com o irmão, dormiu na mesma cama, nos pés do seu irmão. Duas noites? O desejo durou anos, mas desistiu dele em duas noites!! Duas noites? No outro dia arrastou sua cama para o quarto dele e nunca mais reclamou de dividir o quarto com seu irmão. Depois disso, não quis saber de me certificar ou provar qualquer coisa a respeito. Seria o nome de covardia, imaturidade ou fraqueza?

Quando lembro desse episódio, penso na questão do medo. Ter medo não é algo ruim, mas quantas vezes permitimos que o medo nos intimide a ponto de criarmos grandes monstros e fantasmas em nossas cabeças, alimentando-os com nossa fraqueza e desespero descabido. Assim depois de dominado pelo medo, você abrirá mão daquilo que mais sonhava, mais desejava pelo simples fato de acreditar em uma mentira que resolveu contar para si mesmo, que ouviu da sua própria mente confusa, que ouviu de alguém ou de suas próprias projeções doentias e sem fundamentos.

Quantas vezes antes de iniciar algo pela primeira vez ou diante da chance de recomeçar, você começou a projetar o passado no presente? Consequentemente tais projeções acabaram afetando o seu futuro. O Desconhecido causa medo, mas se você estiver disposto a aprender, ele sempre será uma Benção. Surge um dilema… Quem poderá te salvar de si mesmo?

Afirmo que tal casa não existe mais, apenas o terreno, mas hoje noite estou indo lá em minha mente, entrando sozinha na mesma casa sombria e esquisita. No mesmo quarto de outrora, deitando na minha cama sem cobertor para me esconder… Perto do mesmo interruptor inconveniente e, se luz acender hoje, vou deixá-la acesa porque escolhi enfrentar os meus próprios medos de frente, cara a cara, olho no olho.

Autora: Paula Gouveia


4 comentários sobre “Assombração

    1. Realmente, eu também vivi muitas aventuras naquela casa, naquele quintal enorme cheio de árvores, do pé de sete copas que a gente se irritava com todas as folhas que caíam, dos pés de manga… tão doce, no balanço de pneu com uma única corda, do tanque que a mãe lavava roupa, meus dois cachorros, os cinco gatos que a mãe surtou e fez a gente dar um jeito (risos) e principalmente da tranquilidade inocente de ver o mundo com olhos tão curiosos e cheios de imaginação. Fecho olhos e ainda consigo ver a casa… e os vários mundos que a minha mente de criança inventou…

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