Narciso me observa

Narciso
Pintor: Michelangelo Caravaggio, 1594-1596
(Galeria Nacional de Arte Antiga)

Qual é o meu valor? Qual é o seu valor? Diante de tamanha disparidade visível ou invisível, opondo-se ao fato de que meu valor ou o seu está associado a algo palpável… tangível?!

Maria acredita que dinheiro é algo sem valor e não precisa dele para ser feliz. Preço e valor são iguais? Vejo as violetas florescerem com pouca luz. Há tanta beleza escondida e há tanto para se procurar! Quem dera eu e Maria pudéssemos conversar!

No recôndito da vida, me convido a pensar que dinheiro sem dinheiro traz mais miséria (e infelicidade) e dinheiro por dinheiro traz vida vazia (e também infelicidade!). Qual o preço de Maria? A presunção ou sabedoria incompreendida, naquilo que é essencial e imperceptível. Quem é Maria?

Eis o dilema, um encontro inevitável com o sistema à sua frente. Ela é vítima desse mesmo sistema que a subjuga com interesses arbitrários e a força a acreditar que seu valor é preço. Ela sabe que é vítima, questiona esse lugar imposto por outro, mas recusa-se a permanecer sentada nele. Não se comporta como vítima! Não se vê como vítima! Liberdade ou Valor? Queria ser Maria?!

Siga o arco-íris e uma busca incessante para o final! E, todo o resto? Forçou o abraço e um grito audível que o seu valor está acorrentado aos números bancários de uma conta corrente, ao vestido capitalista com muito brilho e espartilho apertado, seguindo hipnotizado com toda a pompa superficial de quem vive uma vida vazia e desregrada! Sorri pela aproximação íntima de Narciso que beija-lhe a face com gosto e desejo. Qual é o seu preço? Reflexo de um eu complexo e mergulhado em delírio. Confusa, voltou e também beijou Narciso em sua face fria e distante.

Maria quer ter dinheiro, oras quem é hipócrita? Deite-se no divã e questione, “você usa o dinheiro ou o dinheiro usa você”? Maria quer dinheiro, trabalha honestamente por ele, precisa dele, mas não vive uma busca implacável por dinheiro. Ela não negocia seus valores e princípios! Quem sussurra? Que voz é essa? Mais perto. Mais perto! Ouço uma voz assombrosa a sussurrar em meu ouvido: “E, todo o resto?”

Talvez eu entenda, Maria. Eu quero entender mais, Maria! A criança que há em mim, cresceu confrontando desde cedo o opressor e a desigualdade, destinando-a “a ser ninguém”… mais uma vida à deriva. O que uma criança podia fazer? Por que Ser, tem que estar acorrentado a preço? Os valores se invertem e ninguém questiona?!

Narciso quer que eu acredite que preço é valor e valor é preço!! Insanidade de uma mente doente e de um ego inseguro com um diagnóstico de traumas, pelas inúmeras humilhações de vivências em cenários perturbadores e exposições vergonhosas. Nenhuma criança merece passar por isso! Mas de quem é a culpa? Julgo e logo sou condenado!

A música começa, é lançado o convite para dançarmos uma dança ilógica. Narciso se aproxima me encarando, quer me beijar também. Recuo, mas algo me fascina nele. Ele olha curioso para Maria e com um certo desdém sorri, um sorriso dissimulado. “Vem, Maria! Dance comigo, sou parte de você e de todo o ser humano!” Mas… e, todo o resto?

Maria dança com Narciso e de forma trágica se vê em seus braços. Uma armadilha do ego! Ela se vê refletida no espelho de uma realidade desfiadora, dura e cruel. Então, empurra Narciso que cai atônito! Ela respira fundo e consigo ouvir sua voz firme que proclama… “E, todo o resto?” As violetas continuam florescer e Maria sabe que murcharão em poucos dias. Quem é Maria? Qual é o valor de Maria?

Autoria: Paula Gouveia


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