A partida

Foto by Pinterest

Parecia um dia comum como todos os outros (até agora). No entanto, havia algo de diferente naquele momento, algo estranhamente empolgante e confuso, mas decisivo. Marília estava esgotada da vida que levava e isso a perturbava constantemente nos últimos anos. Enquanto arrumava sua mala com roupas, livros, sapatos e tudo que achava que precisava, sua postura transparecia decisão e ninguém mais iria impedi-la de partir, estava com medo… apavorada na verdade.

Nunca conheceu outros lugares como a sua cidade e arredores, nunca conheceu outras pessoas além dos velhos rostos conhecidos… o mundo era tão vasto. Tudo o que estava sua volta lhe era familiar, confortável e falsamente seguro. Como ela sabia disso? Instinto!

A mala está pronta. ‘Meu Deus, que peso!’, pensou surpresa. Uma mala pequena e extremamente pesada. Será que realmente precisaria de todas aquelas coisas? Não sabemos, na verdade, nem ela sabia. Foi até o quarto de Eugenia que debilitada em sua cama, esperava amargamente o fim de seus dias e sem aceitar o fato de estar com uma doença terminal.

Marília a observa, tentando ser fria, pois olhar para Eugenia era muito difícil. Como alguém que foi por tanto tempo opressor e manipulador parecia tão insignificante e patético naquele instante? No entanto, algo inconsciente ainda incomoda, como era doloroso romper aquela ligação e dar o próximo passo sem autossabotagem.

Era claro como a água que não havia bondade em Eugenia. Ela não sabia o que era amor, era neurótica, insegura, controladora e seu olhar era de raiva que virou ódio. ‘Nunca pensou em mim, nem na menina, somente nela. Nos enganou esse tempo todo, com a desculpa que estava nos protegendo. Nunca ouve verdade nela, nunca conheceu a inocência e controlava a minha vida com mentiras. Não a odeio e não tenho pena também’, refletiu Marília agitada. E com lágrimas escorrendo pela face e corpo todo tremendo de nervosismo, disse ‘Adeus, Eugenia!’ e perguntou, ‘Você quer o meu perdão?’

Eugenia deu uma gargalhada cínica e sarcástica, gritando dramaticamente: ‘Seu perdão?! Quem você pensa que é? Eu te disse para não ter ideias, a Verdade não existe! Você vai quebrar a sua cara! Você me escutou?! Não existe a Verdade! Eu cuidei de você! Eu te protegi! Eu te ensinei como a se vestir, a se comportar, a pensar e agir! EUUUU! ‘

A cada palavra, uma terrível loucura refletia em sua face obscura e sinistra. ‘Marília, eu te avisei para nunca mais se aproximar daquela menina fedelha! Era para ela continuar naquele buraco, era o melhor para duas. Não existe amor! Só em mim você deve confiar! Essa doença foi culpa sua, por sua causa fiquei doente, seus questionamentos me enfraqueceram. Você é uma ingrata!!’ E continuou dissimulando, ‘você… curiosa quis saber mais, não me ouviu. Desconfiou de mim e agora me desafia. Você é fraca, sempre foi fraca e não vai conseguir ser livre! Seu perdão?!’ – cuspiu no chão. ‘É isso que o seu perdão significa para mim. Traição!’

Marília ficou em silêncio, ouvindo cada palavra, sentiu um arrepio pelo corpo, mas não permitiu ser intimidada. Ouviu tudo, suas mãos estavam doendo e sentia uma forte vontade de vomitar. Eram suas emoções querendo denunciar seu medo, mas manteve se forte como um rochedo. Depois dessa despedida turbulenta, repleta de contestações e acusações odiosas, ela sai do quarto deixando Eugenia estérica com suas fiéis ajudantes. Cada grito sacudia sua mente e sua alma, ciente de que talvez era a última vez que a veria… era um adeus, sem dúvidas e isso a deixava com mais medo ainda.

Ouça os gritos! Veja a escuridão ficando para trás e a luz se aproximando. O desconhecido está a nossa frente e Marília sabia disso, era uma partida sem volta.

Ela ouve os gritos ecoando pela casa vazia, bagunçada e imunda, sentindo o cheiro fétido da raiva, do ódio, da mágoa e de todas as mentiras e ilusões, mas era preciso partir. Não era somente por ela, mas pela menina. Estava apavorada, uma dor esmagava seu coração e uma angustia dilacerava a sua alma, Eugenia não a entendia e duvido que um dia tentará entendê-la. Marília caminhava absorta em seus pensamentos mais sombrios e tristes.

‘Como pode? Que egoísta! Como tem coragem de dizer que me ama? Que tipo de amor é esse? O amor não poderia aprisionar, mentir e manipular. Não conheço o amor (admito)… sinto medo daquilo que se aproxima da minha vulnerabilidade. Ela disse que não era bom ser vulnerável, mas se eu conhecer o amor e a verdade, talvez eu descubra o que me falta… talvez eu descubra meu propósito!’, pensava angustiada.

A bagagem estava pesada e seu coração estava partido por deixá-la, sabendo que logo ela morrerá e não existirá mais. Entretanto, ela sentia que precisava partir, aquele lugar não a pertencia mais e nem ela pertencia mais a ele. Estava muito confusa e ansiosa, mas esperava encontrar respostas para suas perguntas e clareza para seus dias futuros.

Marília ajoelha no chão e olha para a menininha de cinco anos, segura a sua mãozinha tão delicada, seu rostinho está radiante e ver aquele olhar inocente era o mais próximo que ela entendia sobre o amor. Sua prioridade sempre foi proteger a pequena, mesmo que o preço fosse passar por cima de seus próprios sentimentos, mas não havia arrependimentos, fez o que achava ser o necessário a fazer.

‘Foi para o bem dessa menininha que decidi partir. Eu devo mais a ela do que a mim mesma. Ela precisa recuperar o tempo perdido, não foi justo ter lhe tirado o direito de ser livre e feliz. Sei que não temos muito tempo, mas o suficiente para viver, aprender e descobrir (ainda). Manterei minha palavra e jamais a abandonarei novamente’, respondia para si mesma, convencida a não desistir.

Depois de um momento de silêncio, pensamentos fervendo, respirou fundo, se levantou e pegou com a outra mão a sua mala pesada e disse mais para si mesma do que para a menina.

– Vamos, pequena! Chegou o grande momento, é hora de partir!…

Autora: Paula Gouveia


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s