Medo de morrer

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Eu tenho medo de morrer. Não tenho medo da morte em si, mas de tudo que vou deixar para trás, de tudo que realmente é importante e especial para mim. Lembro-me da última reunião de família, a alegria e a bagunça de estarmos juntos, gargalhadas, conversas rasas e conversas profundas. Observava cada cena, fora de mim, as conversas engraçadas da minha irmãzinha, o meu irmão caçula me provocando por causa do bolo de banana que fiz, o abraço apertado dos meus irmãos, o ouvir “sinto muito a sua falta”, o beijo no rosto com carinho em cada um deles. As conversas sobre filmes com minhas cunhadas.

A presença hilária e irradiante da minha melhor amiga, minha tia amada falando coisas incríveis (realizada com um gozo inexplicável, sentada na ponta da mesa, me provocando com alguns de seus questionamentos ácidos e deliciosos), ver meu tio querido deitado no sofá dormindo, mas dizendo que estava assistindo Frozen 2. (mas não estava, rs) A comida deliciosa na mesa, fartura de amor e fraternidade. Tenho visto tudo diferente depois dos últimos acontecimentos, tenho visto tudo como se fosse meus últimos dias.

Tenho medo de morrer e deixar para trás saudades e uma dor que sei que nunca vai de fato sumir dos corações de quem eu amo e de quem me ama. Uma cicatriz que nunca vai sumir. Tenho medo de não ver minha avó Kika mais uma vez, o rio Paraná e respirar o ar da minha cidade natal.

Muitas coisas mudaram de percepção, pessoas que achava serem importantes, descobri que nunca foram, pessoas que admirava e era ilusão da minha mente insegura. Pessoas que achava que queria sua amizade, mas percebi que nunca existiu reciprocidade, que não queria mesmo a amizade delas e nem elas a minha. Por outro lado, enxerguei pessoas que não esperava se aproximarem, mas realmente me surpreenderam com seus sinais, me observando sem que me desse conta de que estávamos conectadas por algo muito maior e simples ao mesmo tempo. Foi então que decidi ser feliz com alguns amigos, poucos e bons, que me colorem o dia e me desafiam a ser mais humana e empática.

Tenho medo de morrer e ter perdido tempo em sofrer com o receio de ser rejeitada, boicotada ou punida, porque me recuso a entrar na caixa que os outros me impõe, só para eles se sentirem mais seguros e confortáveis na sua vidinha, porque o “meu jeito de ser” incomada.

Medo de não ter me libertado da preocupação, sobre a tentativa dos outros em querer castrar a minha feminilidade, sexualidade e autenticidade, só porque cortei o cabelo Pixie cut, por gostar de sapatos e roupas confortáveis, se meu sutiã é P ou M (dependendo do modelo), se prefiro ter o peso que acho ideal para meu biotipo, do que ser uma anoréxica malhada com silicone, escrava da ditadura da beleza. Ou, sem ter me livrado da preocupação com meu estado civil, por pressões sem coerência e irrelevantes de mentalidades arcaicas, depois de eu ter enfrentado tantas coisas dolorosas sozinha. As músicas continuarão sendo tocadas e sempre será uma festa se alguém vier dançar comigo ou não.

Ninguém pode me tirar o orgulho ser Mulher, da delícia de ter uma mente criativa, sensível e dramática. Apesar dos desafios e limitações, ninguém têm o direito de me ditar padrões para eu ser aceitável para os outros! Minha feminilidade é minha, um poder que Deus me deu, uma dádiva… vejo me no espelho e estou feliz com o que vejo… feliz em quem estou me tornando.

Agora entendo, tantos medos que ficaram pequenos quando olhados de frente, se tornaram insignificantes. O vício de agradar, querer aceitação ou aprovação foi para o ralo e me sinto muito melhor agora, sem esse peso. Descobri a diferença entre preço e valor, dane-se tudo aquilo que alimentei como verdade, dane-se a tradição que me foi imposta e que me julgou sem conhecer a minha dor e a minha história.

Eu tenho medo de morrer e não ter sido inteira. Por não ter jogado pela janela os títulos, papéis, status, padrões, “pré-conceitos”, paradigmas, posições e cargos que nunca me definiram. E, sem ter me despido da hipocrisia e da falta de fé, enxergando além do horizonte, vendo aquilo que todos olham mais ninguém vê.

Tenho medo de morrer e não conhecer a Deus de verdade, com minhas próprias experiências e intimidade. Não quero mais a imagem de Deus e nem o conhecimento dos outros sobre Ele para mim. Não quero ter medo dEle e nem buscá-Lo por interesse, mas estar à vontade comigo e com Ele, desfrutando da Sua Presença, do Seu Amor e da Sua Graça. Não quero que me digam como tenho orar ou me comportar, não estou preocupada com a minha reputação, apenas com o meu caráter, gosto de conversar com Ele, pois Deus é alguém como você e eu. Quero Deus todos os dias, acessível e se relacionando com um ser mortal como eu. Caminhar e viver com Ele como alguém, um amigo, um Pai, um Mestre… Dane-se, se não sou ortodoxa!

Tenho medo de morrer e não ter descoberto o amor pelo que ele realmente é, não o amor romântico e frágil como cristal como todo mundo me fez acreditar, mas o amor real, forte, duradouro e que segure na minha mão sem medo (sem perfeição dos contos de fadas). Não quero mais ter expectativas em pessoas, coisas e situações todas amarradinhas e perfeitinhas. Isso é entediante!

Quero aceitar a vida e as pessoas como são, sem expectativas irreais e viver livre para ser quem eu sou também. Entender que a Vida é o que é! Quero partilhar com leveza e simplicidade a Vida com pessoas que querem o mesmo também. Quero apreciar aquilo que me desafia e as rotinas simples do dia-a-dia.

Tenho medo de morrer sem deixar meu passado no passado e o futuro no futuro, vivendo só o meu hoje. Nem tudo saiu do jeito que pensei ou sonhei e nem vai sair tim tim por tim, cada dia é um passeio para mim. Dane-se o controle e os prazos!

Tenho medo de morrer sem permitir meus pais serem eles mesmos, sem aquela tristeza de que “tem” que serem pais idealizados ou heróis. Perdoei minha história e meus pais, quero que não carreguem o peso de serem pais perfeitos, mas sintam-se livres para serem eles mesmos. Eu sempre os amarei.

Tenho medo de morrer e não ter feito tudo que desejo e sonho, sei que muitas coisas não podem ser realizadas para não perderem o encanto e o fascínio (está tudo bem agora!).

Tenho medo de morrer sem entender que existem finais felizes, finais tristes, mas que existem também finais necessários com aqueles que a gente achou que dividiria toda a jornada, mas que por vários motivos, acabamos escolhendo caminhos diferentes, guardando com respeito em nossos corações o que foi vivido juntos.

Tenho medo de morrer e não ter perdoado o que precisava ser perdoado, de não ter deixado ou jogado fora a velha mala pesada de coisas sem importância, que não cabem mais em mim, sem ser livre, nua de toda a mentira e ilusão do ego.

Tenho medo de morrer e não ter sido eu, de não ter vivido meu Propósito, a minha Missão e de não ter sido corajosa e forte o suficiente. De não ter aceito a minha vulnerabilidade, confundindo-a com fraqueza, sendo autossuficiente, só porque fui decepcionada por confiar em pessoas (seres humanos). Eu mereço uma segunda chance, também! Que devemos dizer eu te amo a quem realmente amamos, mesmo se não tivermos motivos. Às vezes não quero que as pessoas se aproximem demais, mas sei que tenho necessidade delas, que amo minha solitude, mas que amo também a companhia daqueles que fortalecem minha existência com suas ambiguidades e afeto! Que paradoxo!

Tenho medo de morrer e não ter dito tudo aquilo que pensava e acreditava. De perder as oportunidades essenciais que fariam a diferença na minha vida e na vida de outras pessoas. De não ter defendido e lutado pela Justiça, a Verdade, a Integridade, a Honra e a Inocência. 

Tenho medo de morrer e não ter vivido a Vida grandiosamente. De ter vivido a Vida de qualquer jeito, empurrando com a barriga, sem paixão, sem intensidade, desperdiçando meus dons e habilidades com coisas insignificantes passando por cima dos meus princípios e valores.

Tenho medo de morrer e não ter me tornado eterna… Entendo que não tenho medo da morte, sei que um dia ela virá nos chamar, mas pensar na morte é só um jeito de me fazer mais consciente, ser alguém melhor e valorizar aquilo que precisa ser valorizado. Na verdade, não tenho medo de morrer, tenho medo de estar viva e não viver a Vida em sua plenitude e inteireza. Quero senti-la mesmo que me cause angústia, mesmo que não saia exatamente como planejei e mesmo que não consiga amarrar todas as pontas soltas.

Tenho medo de que a Morte ao me chamar, olhe para mim sem nenhuma surpresa e conclua que não vivi a Vida do jeito que ela realmente merecia ser vivida e me diga com desdém, sentido prazer por se achar sempre certa: “Mais uma que desperdiçou a Oportunidade!” E, eu perceba arrependida que é tarde demais para irritar a Morte, deixá-la desconcertada e surpreendê-la com um belo sorriso de satisfação de quem soube exatamente viver…

Autora: Paula Gouveia


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