O vazio

Ilustração Paula Gouveia

***Áudio do Texto no final

Em vários momentos resistimos o vazio, aquele completo silêncio e fugimos com medo de que ele nos revele algo oculto… Durante muito tempo, foi o que aconteceu com aquele homem de meia idade, alto, atlético e de expressões nada convidativas. Eu consegui observá-lo daqui.

Hoje, ele olhou-se no espelho e viu que havia desperdiçado sua vida até aquele momento. Sentiu uma profunda tristeza na alma e muitos arrependimentos. Abaixou a cabeça, olhou-se novamente e encontrou um vazio… estremeceu. Deitou na cama esgotado, sentindo-se um fracassado diante de uma vida de escolhas questionáveis e sem sentido. Fez uma pequena prece que aprendeu quando criança, então, um silêncio devastador, invade aquele quarto escuro e as perguntas começam a surgir… ‘Onde estará a Verdade?… Qual é o sentido da minha vida?… Quem sou eu?…’

Ele não esperou ouvir nenhuma resposta e caiu em um sono profundo.

Acordou no meio da noite inquieto, acendeu a luz e se assustou ao ver que sua casa estava uma verdadeira bagunça, o ar exalava um cheiro insuportável, nojento… Sua casa estava irreconhecível. Apagou a luz, talvez fosse um sonho. Acendeu a luz, lá estava o temido oculto sendo revelado! Seu rosto expressava perplexidade e terror. ‘Não pode ser… como todo esse lixo veio parar aqui?’

Tudo estava bem ali, diante dele. Veja! Esse homem agindo como um menino… procurando culpados e possíveis responsáveis… inventando desculpas esfarrapadas… respirando arrogância e mesquinharia.

Nada adiantou… o silêncio é insuportável! Ele quer gritar, mas não consegue.

Ora um homem ensandecido… ora um menino… ou um moleque… Sentou-se no chão amedrontado. Com certeza, é um homem menino! Tudo em sua vida foi acontecendo ao mesmo tempo… O que são responsabilidades? Ali está um menininho no chão em posição fetal, com medo… sentindo-se inseguro e desprotegido… Qual é o meu valor? Insignificante ser… Haveria algo de bom nele? Um menino machucado e perdido… O que ele poderia fazer? Seria justo acusá-lo de algo que não era sua culpa ou de sua responsabilidade? Mas agora… o que é de sua responsabilidade? Um menino ferido que transformou-se em um homem ferido… Um menino que enterrou o seu coração… que enterrou seus sentimentos para não sofrer. Olhe para ele… Ele tenta ignorar, mas suas defesas foram estilhaçadas… Acabaram os esconderijos, não existem mais estratégias de fugas ou desculpas… as máscaras estão todas trincadas revelando a sua verdadeira face.

Cuidado! Cuidado com aquilo que deseja, esse dia chega… Você está pronto para receber? Ou vai passar sua vez (novamente)? E, se for sua última chance? Olhe para você! Está com medo de quê? Você está apavorado. Se vê um covarde em potencial… indefeso… Sua farsa foi descoberta. Qual o problema em ser você? Será que nunca parou para pensar que todo mundo está travando batalhas semelhantes? Por que quer impressionar? Impressionar quem? Não cansa de ser mostrar forte o tempo todo, equilibrando pratos em uma corda bamba de aprovação e rebeldia?

Tenho que tentar! – disse para si mesmo.’

Ele se levanta e caminha em direção do caos, dos excessos e de toda a desordem que o desafia. Será que o externo revela o seu interno? Falta clareza e equilíbrio? Veste-se com coragem, integridade e honra.

Caminha… aos tropeços, incerto e angustiado. O medo te espreita, eu sei. Continue caminhando, mesmo assim! Seu estômago revira com o cheiro de podridão… todo esse lixo… sujeira… mofo… Caos! Quem é você? Para onde está indo? O que você quer? O que você não quer mais? Ele continua caminhando em direção ao caos. Machucando os pés descalços nas distrações, empurrando o vitimismo que está em seu caminho e se desviando da própria miséria de espírito. Não tenha medo, ou tenha, mas decida enfrentá-lo com coragem. O medo é apenas uma ilusão… um fantasma confuso que você criou e alimentou.

Ele sentiu suas pernas bambas, um arrepio na pele e um frio na barriga aumentando a cada passo indeciso. Eu sei que você quer parar… Não pare! Te encorajo! Deus segura a sua mão. Você não está mais sozinho, nunca mais!

Olhe! O que você vê? Olhe bem, tudo isso é você! Uma confusão! Uma bagunça! Quantos sentimentos ruins acumulados? Quantas tristezas empilhadas? Quantas dores apodrecidas? Quantos fracassos colecionados? Quantas tralhas de mentiras? E essa caixa tão imensa de ego e orgulho?! Quantos pensamentos viciados? Quantas palavras sem coerência?

Quem é você no meio de todo esse caos? Consegue enxergar o teu valor no meio de tudo isso? Onde está a sua autoestima e seu amor-próprio? Consegue ver onde deixou a sua fé? Onde estão todas as coisas boas e incríveis que o Criador colocou em você? Onde está o Amor?

Por que confunde vulnerabilidade com fraqueza? Onde de fato está a sua força? Em seu braço? No seu falso controle? Onde está tudo o que realmente importa?

O Criador sussurra:

Eu te dei um coração. Onde está o seu coração?’

Vejo um homem paralisado diante da quantidade enorme de coisas para analisar e confrontar. Ele se ajoelhou idolatrando a procrastinação e a indecisão, desejando um banquete de negligência e ilusão. Estava perdido (mais do nunca).

Quanta vezes, é preciso se perder para descobrir outros caminhos? Talvez se reencontre com mais relevância e verdade. Sei que você quer chorar, sentar no meio de tudo isso e chorar. Chore! Chore o quanto for necessário! Quem disse que homem não pode chorar? Quem disse que homem não pode ser amado? Quem disse que isso era fraqueza? Vejo um urso feroz, mas ferido… tentando espantar com seu grito e repugnância qualquer um que se aproxime.

Ele abraçou sua vulnerabilidade e compreendeu o luto de uma vida que não cabe mais nele. Sentiu o abraço do Criador e compreendeu também que nunca esteve sozinho. O menino que um dia olhou o Céu e imaginou os passos de um Deus grande… e se impressionou com a possibilidade do tamanho dEle ser muito maior que a sua imaginação limitada podia supor. Você cresceu e teve que fazer as coisas acontecerem e ninguém te apoiou, talvez não do jeito que você esperava. Talvez era assim que devia ser… Era assim que devia acontecer.

Agora vejo um homem que chora desesperadamente, porque confiou na sua autossuficiência tateando no escuro, acumulou toda bagunça, tralhas desnecessárias, verdades corrompidas, expectativas quebradas, amores doentios, consciência preguiçosa, lixos de culpas, desamores, decepções, dores, ódio, raiva, escassez e amargura… Uma vida de escolhas ruins, alinhada ao desequilíbrio de seu coração ferido e de uma mente perturbada e sem propósito.

Ele sentiu uma dor terrível, mas não existe cura sem dor. Lá vem o Mestre… e Ele quer te curar. Você quer se curar? Ele sempre respeitará o seu livre arbítrio. O Criador não pode ser responsabilizado por suas escolhas egoístas. Ele tentou te dar as direções com clareza, tentou te instruir, questionando você sobre as coisas que foi trazendo aqui para dentro, mas tinha muito barulho em volta de você. Ele falou repetidas vezes…Você não ouviu, não quis ou não soube ouvir? Está na hora de se perdoar, perdoar a tudo e a todos (Perdoe!), porque o Mestre te perdoou primeiro.

Levante-se! O que fará com o que enxergou agora?

Em suas mãos está a decisão: limpar a bagunça ou apagar a luz?

Se decidir limpar a bagunça, saiba que encontrará um vazio ainda maior, mas nunca mais você será o mesmo.

Quem sabe, seu desejo se torne realidade e você descubra que foi criado para viver a Verdade.

Autora: Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia):


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