Albatroz

Ilustração em Aquarela Paula Gouveia

*Áudio texto no final

Vou contar uma história para você, é sobre um belo pássaro: o Albatroz.

Era uma vez… em um lugar não muito distante, um Albatroz, um pássaro grande e lindo, suas asas são enormes e de maior envergadura. Por causa dessas asas, ele podia voar pelo ar por muito tempo e sem precisar dobrá-las. Esse pássaro, passa a maior parte da sua vida voando, sobre ao longo do oceano, não por dias e nem por meses, mas por anos.

É possível que você o veja nas ilhas de Galápagos. Galápagos é o lugar que ele gosta de ir, com objetivo de se alimentar e começar uma família, mas ele demora para atingir a maturidade e demora também para acasalar. Por vários anos retorna frequentemente para a mesma colônia, apenas para praticar os seus rituais de acasalamento (suas danças). Essas danças são importantes, pois quando aperfeiçoadas se tornarão uma linguagem individual e única para o futuro casal. Após anos sucessivos (indo e vindo) para praticar suas danças, a interação com as outras aves… vai decaindo.

O Albatroz é um dos poucos pássaros machos monogâmicos. Anos se passam sem que ele perca seu ritmo. Então, depois de usar o tempo a seu favor, alcança a completa certeza… Finalmente, escolhe apenas uma única parceira para toda a sua vida.

Foi assim que chegou esse Albatroz… meio incerto e perdido… pronto para iniciar seus rituais. Estava decidido. Ele se aproxima… Ela não entende absolutamente nada.

A dança começou!!!

Tudo sempre esteve ali, debaixo do nariz dos dois. Ela não sabia ao certo quando começou compreender aquele sentimento em relação a ele. Foi tudo recente? Ele começou a suspeitar que ele sabia sem saber, disse que foi desde a primeira vez que a viu, mas ela estava muito longe de ser real para ele. Eram dois pássaros que voavam limitados pela divisa de territórios, sem nunca se encontrarem.

Entre rituais de danças, idas e vindas. Outros tantos passam, ela não entende. Outras tantas passam, ele não se preocupa. Ele quer estar ali e ela não quer mais.

Tudo isso é realmente necessário?

Ele sorri com os olhos quando a vê. Ela sempre distraída e tão à vontade com a presença dele, nem se pergunta o porquê.

Ele não admitiria nunca, mas é um sonhador. Ela tem um pé no chão e o outro está suspenso porque ela voa com asas invisíveis.

Ele a olha tentando captar tudo que pode, para depois, ficar repassando em sua cabeça dura e teimosa, a imagem de um possível anjo aqui na Terra.

Ela age como ela mesma, indecifrável, transparente, imperfeita, distante e selvagem.

Por que ela não enxerga os sentimentos dele?

Ele se parece um rei mau. Ela se parece uma justiceira e um pouco princesa.

Ele a provoca, diversas vezes… Ela não entende o motivo que a faz ficar tão incomodada com provocações dele. Ele se aproxima, ela se afasta. É sempre assim… quase todos os dias. O Albatroz vem, tenta exibir desajeitadamente sua dança e depois vai embora… “Eu vou voltar melhor’. Ele está determinado.

Será que estão prontos?

Ela achou que ele queria a lua, mas ele quer mesmo é alcançar uma única pequena estrela. Infelizmente, têm noites escuras que ele não pode vê-la, mas sabe que ela está no mesmo lugar. ‘Ah, se ela soubesse!’ – suspira ele.

Ele volta, existem muitas oportunidades para exibir sua dança com aquelas que estão próximas a ele. Ele vai dançando… Ele a vê de longe e espera ansioso que reduzam as distâncias… É hora de ir. Voar novamente. Quem sabe da próxima vez!

Mesmo assim… ele tem medo, porque quanto mais tenta alcançá-la, mais longe ela parece estar. Teme que nessas idas e vindas da Vida… ao voltar, ela tenha sido escolhida por outro Albatroz.

Ela mantém os olhos no horizonte e existe um mundo dentro dela que é difícil acompanhar, mas ela sabe que precisa acreditar no futuro e esperar o tempo certo tudo. Ela não sabe nada sobre esse Albatroz. Ou talvez pensa que não sabe?

Como um ímã ambos se atraem em situações pintadas de coincidências. Lá estão seus caminhos se cruzando de todas as formas possíveis. Ele se anima… Ela acha que é coisa da sua cabeça… gente de imaginação fértil, sabe.

Ele romantiza tudo, ela se esforça em pôr os dois pés no chão.

Eles se olham e veem coisas diferentes. Ele a observa curioso e ela sem entender atraída por ele, o observa também. Os dois pensam ao mesmo tempo: ‘Não entendo!’, a distância ainda é longa.

Voa… Voa para noites de tempestades e céu ensolarado. Volta novamente e dança, está um pouquinho melhor…

Ele é silêncio, ela é melodia. Ele parece sempre bravo. Ela sempre concentrada. Ele não sorri. Ela sorri o sorriso mais bonito que ele já viu. Ele é estranho. Ela é esquisita. Ele é solidão. Ela é solitude. Ele é sem pressa. Ela é afobada. Ele é livro. Ela é poesia. Ele é cérebro. Ela é coração. Os dois são café…

Ele entra por uma porta. Ela sai por outra porta. Eles se encontraram e desencontram muitas vezes… se desencontram de novo, mas se reencontram como se nunca tivessem partido.

Voa… partiu novamente esse lindo pássaro… com vigor… veja o céu repleto de estrelas… o amanhecer… depois o anoitecer… Voa para mais longe e incansavelmente volta novamente…

Ele sempre estende a sua mão para ela. Ela pega sem exitar, sem questionar…

Estranho, por que ela faz isso?

Ele a protege. Ela diz que não precisa, mas sente-se segura com ele.

Ele se preocupa com ela, tenta fazer sempre algo, mas se preocupa muito em fazer algo grande e nem sempre consegue. Ele não entende que são as coisas simples, o que tem mais valor para ela. Mesmo assim ela vê, reconhece e aprecia todo o esforço dele, mas caminha em direção ao desconhecido com ousadia e fé. Ele quer fazer mais por ela… quer cuidar dela… quer ficar perto… Ela não entende, porque sempre se virou sozinha.

Ele sabe muitas coisas. Ela sabe outras tantas. Ambos se complementam, cada um na sua própria individualidade.

Ele tem muitas coisas e quer muito mais. Ela tem quase nada, mas valoriza tudo o que tem.

Ele reconhece o valor dela, já procurou no mundo inteiro, mas ninguém se parece com ela. Ela sabe que ele é diferente, mas demora assimilar.

Ele adora conversar com ela. Ela se deleita ao conversar com ele. Ela fala demais, ele é um ouvinte amável e gentil. Ela percebeu que o seu assunto estava chato e viu que ele segurava um bocejo com muito esforço. Qual o motivo? Ele queria que ela continuasse a falar as suas coisas sem sentido, porque assim ele podia ficar mais tempo perto dela.

Ele é contestação. Ela nunca sabe tudo, mas fica curiosa em relação as observações dele.

Ele a olha nos olhos e de um jeito só dele. Ela percebe esse olhar e fica sempre em dúvida e encabulada.

Ele é inteligente. Ela é algo indefinível.

Ele é eficiente. Ela é prática.

Ele é seco, mas um cavalheiro. Ela é áspera, esconde a sua doçura e graciosidade. Pobres seres, acham que enganam quem?

Ele é estável. Ela é 8/80.

Ele respira. Ela precisar ir devagar.

Deus é o centro de tudo para eles, mas há muitas questões divergentes retratadas com respeito.

Ele é previsível. Ela é imprevisível.

Ele detesta sair da rotina. Ela sabe que não tem como controlar nada. Ele odeia mudança. Ela vive mudando.

Ele disse que gosta de saber tudo o que ela pensa, ela ficou intrigada…

Ela olha desconfiada. Ele sorri com carinho. Ela age estranha e tenta afastá-lo, (isso) o deixa muito irritado e ele não arreda o pé. Ela adora o tom da voz dele. Ele sente tranquilidade ao falar com ela.

Ele acha graça do jeito que ela tenta explicar as coisas para ele. Acha graça na forma natural e tranquila que ela diz que não sabe fazer determinadas coisas. Ela pensa que ele a acha ingênua e boba por abraçar tudo o que ela acredita e por pagar o preço se for preciso.

Ele pensa constantemente nela e a ansiedade aumenta a cada dia (nunca diminui).

Ela estranha na quantidade de coisas faz lembrar dele e se vê tentando sempre colocar em prática o que aprendeu com ele.

A medida que se aproximam, esses dois Albatrozes sentem paz quando estão perto um do outro. O tempo pára e a dança vai evoluindo… as conversas fluem sem esforços, (dos assuntos mais triviais aos mais complexos). Existe uma sintonia única aqui.

Às vezes, ele não ouve nenhuma palavra, só pensa nela… o que transparece no rosto dele. Ela fica confusa… seus instintos tentam falar, mas ela não leva a sério, já se equivocou várias vezes.

Ele a deixa nervosa e intrigada. Ela o deixa nervoso e perdido. Ela é espontânea. Ele calcula tudo que vai fazer. Ela deixa ele sem ação com seu jeito corajoso. Ele não entende as ironias dela, divertindo ela ingenuamente.

Ele a deixa perplexa quando quer uma reação dela. Ela levanta a guarda e reage ridiculamente.

Ele sente muito ciúmes dela, age como stalker, tenta ver o que ela faz e se assusta com todas as teorias malucas que passam na cabeça dele, mas na verdade não faz nenhum sentido e diz para si mesmo: ‘Eu vou ficar louco desse jeito. Ela vai me deixar louco’. Seria mais fácil, se ele tivesse mais coragem de estar perto dela, em vez de fingir ser outra pessoa?

Ela sente ciúmes dele também, mas prefere não saber, (“o que os olhos não vêm o coração não sente’), mas as coisas chegam, a Verdade é atraída até ela. Ela também teme não vê-lo nunca mais. Dói só de pensar nessa possibilidade, mas não quer admitir para si mesma.

Seria mais fácil, se admitisse que se apaixonou?

Ele inventa pretextos para se aproximar dela. Ela acha que é coincidência novamente.

Quando está sozinho ele pensa, ‘por que é tão difícil ela compreender o que sinto?’

Por outro lado ela pensa, ‘o que ele está tentando dizer?’

Nenhum dos dois é claro um com outro.

Voa… voa triste, mas esperançoso e retorna novamente… Dança e dança, mas onde estará ela? Que confusão!!

Ela se assusta quando o coração aperta e faz uma oração imediatamente por ele. Ele se angustia com toda a fachada que levantou para esperar por um sinal verde dela.

O amor é simples, mas eles preferem complicar. Será que é amor?

Ela se vê explicando coisas para ele em sua mente, (sorri sozinha)… pára e balança a cabeça dizendo para si mesmo: ‘Não, de novo não. Larga de ser tonta!!’… É inútil essa autorepreensão, sem querer acaba repetindo isso, diversas vezes ao longo dia.

Ele pensa constantemente, ‘o que ela estará fazendo agora?’ e mergulha de cabeça no seu trabalho. Ele teme tanto ser rejeitado por ela que nem tenta expor seus sentimentos. Ela continua em uma negação com medo de machucar seu coração.

Voa…voa para bem longe, a vida está acontecendo… Eu vou encontrá-la e abrirei mão das ilusões que vivo’ – diz ele sem desanimar. Ele está cansado… mas retorna cansado… são tantos anos… Dança novamente. A dança melhorou muito!!

Ele tem pressa em estar com ela e acaba sempre a assustando quando se aproxima. Ela foge feito passarinho na varanda. Então, ele aprendeu a se aproximar devagarinho, sem pressa e de mansinho. Ela gostou, mas ele perde a paciência (às vezes).

Ele tenta salvá-la, mas ela não quer que ninguém a salve. Ele quer ser o cavalheiro de armadura reluzente dela, mas ela também quer ir para batalhas ao lado dele.

Ele confia nela. Ela confia nele. Ele teme que ela descubra que ele não é tão bom quanto tem aparentar. Ela teme recomeçar e amar novamente. Ele teme que ela não o admire e não o ame, após conhecê-lo de perto. Ela teme que ele não seja ele mesmo e que tudo seja uma mentira.

Verdade é que esse Albatroz nunca sentiu o perfume dela, nunca a beijou, nunca a abraçou… Será que ela é real?

Anos se passam… ele se certifica de que ela voa perto dele… e vai dançando.

É hora de ir embora de novo. Voa… voa por longos dias… voa por longas noites escuras, sem parar e sem descansar. Voa para bem longe, Eu sei onde eu quero mor

ar’… voa com o coração partido e muito cansado…

Agora ele retornou, conseguiu dançar com ela por algumas horas. Ele sorria para ela e ela sorria feliz para ele… e depois mais algumas poucas horas. Mas a Vida é incerteza… Ele a olhou pela última vez, ela ainda distraída, mas agora muito nervosa por dentro de um jeito muito incomum… Ela tremia e reagiu estranha de novo. ‘O que está acontecendo comigo?’ – pensou ela. Ele ficou confuso e triste (de novo)… ‘É hora de partir novamente. Estou exausto. Acho que ela nunca vai me amar’, – pensou ele irritado.

Tempos incomuns se aproximaram, precisaram sair da ilha para verem a ilha toda. ‘Deus com certeza tem senso de humor’, ela pensou deitada em sua cama sozinha, no meio da escuridão em completo silêncio. Foi assim… sem os ruídos a sua volta que ela admitiu para si mesma que sentia algo diferente por ele. Então, chorou baixinho por sua ignorância estúpida.

Ele a amou desde sempre (não havia outra explicação obvia!). Ele a amou quando não devia nem se quer olhar para ela. Ele a amou quando ela olhava para outra direção e naquela mesma noite antes de partir novamente, orou a Deus por um milagre, pois a sua esperança estava se apagando,… adormeceu com a mão no coração, sentindo medo de perdê-la para sempre, mas confiou no Propósito de Deus para eles.

Deus ouviu a prece dele.

Amanheceu e ela parou de resistir, começou a aceitar o que Deus envia para ela por meio do Universo e decidiu prestar mais atenção no perseverante e forte Albatroz de olhar misterioso. Deus sempre sabe o que faz!!!

Mas ao entardecer o Albatroz voou para longe de novo… Sua dança está cada vez melhor… Os encontros estão diminuindo… sua dança está se alinhando em direção a ela.

O Albatroz com certeza retornará novamente…

É preciso as idas e vindas!

Por que a Vida é assim?

O tempo se encarrega de reduzir os excessos de opções rasas para aqueles que buscam viver uma vida de verdade.

O Albatroz voa no horizonte… Voa sentindo solidão, mesmo com as aves no céu ao seu redor. Tão perto e tão longe ao mesmo tempo. ‘Qual será o perfume dela?’

Voa alto, sem precisar bater as asas por dias, meses, anos…. Está cansado, não por voar! O que trará o amanhã? Voa sem dormir durante as longas e frias noites… Asas fortes, dinâmicas, cruzando mares, céus, territórios… pensando confiante, ‘Logo vou retornar’. Voa sem pressa, porque sabe o que realmente quer e que o tempo é seu aliado. Voa para lugares longes, vivendo a sua solidão, mas não pretende ficar por lá, ele sabe onde escolheu ficar. Voa e logo retornará… porque um Albatroz sabe por instinto que o que tem que acontecer, vai acontecer.

Então, depois de muitos anos, o Albatroz retornará a sua colônia, entre as idas e vindas, entre erros e acertos, entre danças e encontros, ficará evidente e com muita clareza o alinhamento da sua própria dança com alguém especial que estará no dia exato do seu retorno. Lá estará ela… Era ela, tinha que ser ela… perfeitamente alinhada a dança dele.

Naquele momento o Albatroz exibirá a sua dança com muita confiança, seu ‘chamamento para o céu’ e escolherá apenas uma que será sua única amada. Eles construirão a sua família. Ele viverá com ela até o fim de seus dias.

Eles voarão o céu azul… por cima daquela imensidão de oceano… se moverão juntos por toda uma vida e nunca mais se sentirão sozinhos. Nunca mais…

Autora: Paula Gouveia

Áudio do texto (voz Paula Gouveia):


2 comentários sobre “Albatroz

  1. Uma lenda única 😘 buscar seu único parceiro para vida,exige determinação, coragem e muita entrega… encantador… que vc encontre seu albatroz… desejo e te abençoo 🙏

    Curtido por 1 pessoa

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