O Menino

Foto by Fabio Pereira

*Texto com áudio no final

Era um dia ensolarado e muito quente, a menina caminhava por lugares distantes. Ela estava pensativa, vestia um vestido branco de lese, andava descalço no chão de terra vermelha misturada a barro em pó. Era possível ver muitos cacos de tijolos quebrados e algumas pedras espalhadas naquela rua larga. Enquanto caminhava ouviu o som de risadas, curiosa, caminhou em direção aos risos.

Eram dois meninos, um de seis anos e outro de quatro anos. O mais velho a viu e sorriu. Estranhamente a menina lhe pareceu familiar. A menina sabia quem era ele, mas não disse nada.

O menino mais velho se aproximou e apresentou o seu irmãozinho. Eles se pareciam na valentia e no olhar desafiador.

O que você faz aqui?’ – o menino perguntou para ela sem enrolação.

Eu precisava te ver (hoje), mas você sabe quem eu sou?’ – ela disse surpresa.

Ainda não, mas desconfio”… – respondeu ele com carinho e dando uma piscada marota.

Me diga, menina!! Como ele está? O que aconteceu com ele?’ – perguntou com energia.

Ele está mais forte do nunca, porém a vida o massacrou… sem dó e sem piedade. Ele se tornou muito duro e por muito tempo agiu com se estivesse em guerra com todo mundo’– ela respondeu com tristeza e uma pontada de ressentimento.

Sinto muito ao ouvir isso, mas não fique brava com ele. Ele só queria me proteger e talvez proteger o meu irmãozinho… ao que me parece é o significado de toda inocência para ele’, disse o menino com firmeza, como se estivesse certo do que falava.

O menino afastou muito rápido e numa brincadeira agarrou o irmãozinho que ficou muito bravo e esperneava com força tentando escapar.

Está vendo esse molequinho bravo aqui? Ele é danado de teimoso’, disse provocando o irmãozinho. Assim, com muito custo o menininho escapa dos braços dele e sorri um sorriso satisfeito por causa da sua proeza.

Menina, eu sempre cuido do meu irmãozinho, somos inseparáveis! Ele é meu melhor amigo! Ele te falou que tem um irmãozinho? Me diga, meu irmãozinho e eu ainda somos amigos?’ – perguntou de um modo estranho e sem olhar nos olhos da menina, (como se já soubesse a resposta).

Antes que a menina respondesse, o céu escureceu e uma tempestade se aproximou rapidamente… O dia ficou escuro como a noite. Os ventos sopravam com muita força e barulho… Dava para sentir o medo.

Ele me disse recentemente sobre seu irmãozinho… Seu irmãozinho caiu de uma árvore aos quatro anos, adoeceu e dias depois morreu. Eu sinto muito!’ – respondeu em lágrimas que agora se misturavam a chuva que começou como uma garoa e ia engrossando aos poucos.

Ele muda de direção sem olhar para ela. Enquanto o vento forte sopra, a menina o vê se afastando em silêncio… ‘a casa’… os dois meninos indo embora de mãos dadas…

Quando já estavam no portão da casa, o menino mais velho olha para menina e diz:

Menina, por favor, não desista daquele rabugento nervosinho… Ele tem medo de amar. Ele tem medo de perder o controle. Mas acredite, ele vai amar você quando chamá-lo de papai pela primeira vez. Ele terá tanto medo que não saberá como cuidar de você. Ele acha que falhou com seu irmãozinho, acha que não o protegeu… Não desista de mim, ainda estou com ele, porém trancado em algum lugar escuro, esperando um dia sair e ver o sol novamente… Esperando um dia segurar na mão daquele homem adulto (já envelhecido, de olhar inquieto e desafiador). Por favor, não desista de mim…

E assim como os risos apareceram… tudo desapareceu com a tempestade…

Quem era aquele menino? E se ele for você? Você poderia segurar na mão dele e dizer que não foi culpa dele? Você poderia apoiá-lo? Quem é esse menino? Quem é essa menina? Como ela poderá cruzar sua história com a dele? Diante da diferença de tempo que os separam, como poderão andar por territórios desconhecidos?

Então, agora é possível que você conheça o homem… Era domingo de manhã, havia chovido a noite inteira. Naquele dia não teve ‘café da manhã’, porque a escassez caminhava com intimidade ao lado daquela família desafortunada. Saíram apressados com destino à igreja. O caminho que aquela família devia passar, era por um longo pasto, cheio de lama e barro. A menina ia completar 15 anos no final daquele ano e inocente mostra para o pai outro caminho, mas o homem irritado a vida toda e inflexível, grita que ‘não’ e dá uma ordem a todos… ‘É por aqui que todos vão passar’.

A menina desobedece e escolhe outro caminho para não sujar os pés. ‘A gente sempre chega com os sapatos grossos de argila e lama! Estou farta desse orgulho e arrogância!’, pensou a menina irritada. Ela se esforça e consegue chegar a tempo no final da estrada. Quando se encontram, ela fica tranquila e deixa para lá o mau humor do pai, mas o homem se aproxima sorrateiramente (cheio de ódio nos olhos) e dá um safanão com muita força no ouvido da menina… (no meio da rua!!) e grita com tamanha estupidez. Ela não esperava, se desequilibrou e quase caiu no chão. Ela era franca, magricela e o homem muito forte e violento. A cabeça dela rodou e o ouvido ficou surdo por um momento…

O que aconteceu? Por que aquele homem exigia que respeitasse o seu autoritarismo cruel? Por que aquele homem só devolvia violência? Haveria algo de bom nele? Haveria um coração dentro dele?

Quando ela recobrou os sentidos, uma fúria se apoderou dela que a fez partir para cima dele com um ódio mortal. Apontou o dedo na cara dele e disse: “Nunca mais você vai encostar a mão em mim de novo, eu juro”.

Todos olhavam na rua, a mãe desesperada implorou para a menina calar a boca e recuar… a pobre mulher gritou quase chorando… ‘Pelo amor de Deus! Estamos indo à igreja!’

Deus? Por que Deus não a protegia? Por que Deus a deixava passar por tantas humilhações? Por que Deus a fizera tão fraca? Por que Deus não mudava a sua família? Por que os anos passavam e poucos eram os dias felizes? Por que sempre culpamos a Deus primeiro e em seguida culpamos os outros por nossos infortúnios? Por que não perguntamos, onde tudo começou? O que posso fazer para (pelo menos) tentar compreender o outro? O que posso fazer para mudar o destino da minha história? Se não sou responsável pela mudança do outro, o que posso fazer para eu ser melhor?

Desde então, a menina nunca mais baixou a guarda. O homem nunca mais bateu nela. Ela perdeu o medo dele e passou a despertar dentro de si uma sede para desafiá-lo. No final daquele ano, ela teve que ir embora, não havia escolha… a mãe tinha medo de que uma tragédia acontecesse e prometeu que logo a acompanharia.

A medida que o tempo passava, seus questionamentos aumentavam e com eles crescia a raiva dentro daquele coração que outrora tinha sido tão inocente e bom. Por que Deus? Por que minha família é assim? Por que não posso fazer nada para ajudá-los? Mas, naquela casa, não havia muito espaço para questionamentos porque ela era jovem demais e era mulher. O que ela entendia sobre a vida? Talvez fosse melhor se tivesse ter nascido homem?

Deus, por quê? Por que vejo as coisas de um jeito diferente? Por que sinto uma inquietação incomum? Por que minha ótica, me angustia? Não me encaixo nesse mundo repugnante e nem naquilo que me impõe! Por que me remexo de um jeito inconformista e visceral? Por que ouço o que ouço? Por que vejo o que vejo?

A menina crescia em raiva e em um senso de justicismo próprio dela. Será que ela estava certa? O que é certo? O que é errado? De acordo com o quê? Seus princípios? Suas regras? E assim com todo empenho e pessimismo, ela ia criando em sua cabeça, o seu próprio código e Deus a observava bem de perto… A medida que o tempo passava, seu coração endurecia para suportar as fofocas, os olhares desaprovadores, as migalhas, as profecias de desgraças sobre sua vida, as brigas que toda vizinhança ouvia, a dor no estômago das noites de fome, a energia e água cortada, os sapatos apertados e a morte sorrindo para ela (a convidando para um encontro antes do seu tempo).

Mas tinha algo que ninguém podia roubar dessa menina, algo que a dava força: a sua fé e seu olhar sonhador diante de todo o caos que ela via. Você não se surpreenderia ao vê-la ignorar e enfrentar tanta coisa hoje que qualquer um sucumbiria… Nós duas sabemos o que enfrentamos. No entanto, quem era aquele homem? Ele poderia ser alguém que você conhece? Ele poderia ser você? Ele poderia ser eu?

Uma relação conturbada… turbulenta… confusa… misturada a raiva, ódio e desprezo. Discussões acaloradas… Ambos defendiam seus pontos de vistas… Ele não sabia ouvir e muito menos conversar… Ela o confrontava cada vez que ele vinha lhe impor algo ou passar lhe um sermão descabido e hipócrita… As coisas não são como você quer que sejam.(…)Você não é o que fala! Você é suas ações!’, dizia ela e se afastava criando um abismo ainda maior entre eles.

Que ironia!! O passado é como um sonho do qual você desperta em algum momento. Ontem já passou e o que você fez que te influenciou hoje (agora)? Você escolhe a família que nasce? Você escolhe a condição social que nasce? Você escolhe o que vai governar a sua vida? Os ambientes têm influência, mas quem é o responsável por suas escolhas?

A menina voltou no mesmo lugar onde ouviu os risos… ‘a casa’ … mas agora não se ouvia mais os risos. O céu estava escuro e era frio. Ela viu o menino escondidinho a chorar a perda do irmãozinho, seu melhor amigo. Viu ele sentadinho olhando perdido sem entender direito. Viu ele apanhar do seu pai até as costas sangrarem. Viu esse menino já rapaz chegar cansado do serviço pesado, dormir no chão sem tomar banho e ser acordado pelo pai aos chutes. O que é amor? O que é carinho?

Viu o menino entender a dor da mãe sofrer em silêncio. Viu as dificuldades daquela família e ter que começar a trabalhar para ajudar no sustento da casa aos treze anos de idade. Viu o menino admirar o pai e enxergar a dureza que ele enfrentava para cuidar da família. Viu o menino ser incompreendido lá atrás e depois a vida inteira. Ele que era arredio, desconfiado, valente, corajoso, carismático, honesto, trabalhador, inteligente, estrategista, simples, líder, orgulhoso, confrontador e ingênuo. Ela viu no menino… o pai… o marido… o irmão… o filho… o homem…o menino… Eu ainda vejo o menino. Será que ele vê o menino?

A menina partiu. Ela quebrou as regras dele, destruiu os argumentos dele, tomou suas próprias decisões, errou, pagou o preço… Estava claro, ele não podia controlar a menina, ela seria uma mulher forte e ele se orgulharia dela no futuro. Mas, enquanto ele se enfurecia com a rebeldia dela… se deu conta que estava perdendo o controle de toda a sua vida… Amar significa perder o controle? Amar te faz entrar em contato com a sua vulnerabilidade? Ele ficou muito confuso, se isolou e se fechou por longos anos.

Os anos passavam e a menina sem se dar conta, avançava em direção a ele… Ela também era teimosa. Deus movia o jogo da vida. Até que um dia o castelo desabou completamente, as muralhas se tornaram ruínas e o homem chorou… suas defesas foram destruídas e só restou o menino, indefeso e desprotegido.

Ele se aproximou para intimidá-la. Olhou com raiva nos olhos dela. Ela permanecia parada, sentindo um misto de emoções surgindo dentro dela e observava as reações tempestuosas dele. ‘Eu mando nessa casa! Quem você pensa que é? Você não mora mais aqui. Pegue as suas coisas e vai embora, agora!’ – o homem gritou transtornado, a boca espumava de raiva.

Ele confuso, sem ver uma reação nela… saiu para outro cômodo. Ela o seguiu corajosamente. Ele vomitou tudo aquilo que consumia sua alma e seu coração por todos esses anos. Esbravejou feito um animal ferido… ora um leão… ora um gatinho… A menina não conseguia mais ver o homem arrogante, agora via o menino de seis anos e um leão ferido. Ela finalmente viu o medo nos olhos daquele homem cheio de bravura e petulância.

Não vou embora… Amor é decisão. Eu decido ficar! Eu te perdoei… Pai, está na hora de se perdoar também!’– disse ela com convicção e o abraçou, enquanto ele chorava como uma criança… como um menino.

Olhe você! Se acha tão perfeito como um deus. Será que está confortável na sua cadeira de juiz? Se acha no direito de julgar esse homem? Quem você pensa que é para condenar quem Deus ama? Já parou para pensar que o lugar mais difícil no mundo é o lugar do outro?

Amor de verdade supera provações, desafios e dificuldades. Ele não se esfria, mas se fortalece e estreita cada vez mais os laços. O amor não ama e nem aprova o erro que o outro comete. Cada um sofre as consequências de seus próprios atos, é inevitável. O amor olha para aquilo que o outro pode tornar-se. Ele sempre espera o melhor, por isso é sofredor, mas paciente. O amor não é o que você sente, o amor é o que você decide. Amor é decisão. Só o amor é capaz de perdoar, só o amor é capaz de curar.

Perdoar não é esquecer, nem apagar da memória aquilo que te feriu, mas significa soltar aquilo que está te ferindo até agora. Perdoar é se tornar livre do veneno que você toma todos os dias, esperando a outra pessoa sofrer com os efeitos colaterais ou morrer. O filósofo francês, Jean Paul Sartre disse, ‘não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você’. Me diga com total clareza e sem vitimismo, “o que você fez com aquilo que fizeram com você?”

Será que o homem e o menino vão se reencontrar? Será que o menino verá o sol novamente? Será que esse homem se permitirá amar e deixar que o amem? Por que é tão difícil perdoar? Por que é tão difícil se perdoar? O filho de Deus olha para você agora e te provoca… ‘Se amardes somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis?’

Que recompensa eu terei? Que recompensa eu terei? Que recompensa você terá?

Em um dia comum, você está deitada no chão, naquele cantinho que você gosta de bater um papo com Deus, bem alí… Você olha pela janela, vê o céu azul em contraste com suas cortinas branquinhas… sentindo cheiro de bolo sendo assado no forno… perfumando todo o ambiente…. Bem alí… se deleitando na tranquilidade do seu lar… Será que o meu passado foi apenas um sonho e eu acordei?

Ah, você ouviria o som dos passarinhos e sentiria uma brisa gostosa, entrando pela mesma janela… Então, bem alí, longe de todos os ruídos problemáticos do passado e do presente, você agradece a Deus por exatamente tudo (bom e ruim). Sentindo o coração tão cheio de gratidão por cada cuidado de Deus. Nada saiu do controle dEle e tudo cooperou para o bem. Perdão. Paz. Tranquilidade. Amor. Serenidade… tudo somado à Sabedoria que vai sendo adquirida aos pouquinhos nessa vida breve.

Eu vi o menino recentemente. Ele havia sussurrado ao meu ouvido que não queria ser salvo por ninguém (eu sempre soube disso!). Então, confidenciou-me um segredo, disse que ganhou um presente: uma segunda chance nessa vida.

Foi aí que entendi que os desígnios de Deus são bem maiores e que devemos prestar mais atenção a nossa vida e no lugar em que estamos agora. Quem sabe você tenha nascido para ser benção e renovo não apenas para a sua família, mas também para aqueles que Deus permitir cruzarem o seu caminho.

Quem sabe o homem abriu a porta do lugar escuro, o menino passou por debaixo das pernas dele e o abraçou com ternura. Quem sabe agora os dois estão andando de mãos dadas e tomando sorvete pelas mesmas estradas agora modificadas pelo tempo.

Quem sabe o menino e homem voltaram a dar risadas de novo.

Quem sabe a menina está feliz agora por eles…

Autora: Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia)


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