A carta

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*Texto com áudio no final

Chegou uma carta…

Em uma época em que as pessoas se correspondiam por cartas e o telefone era apenas para quem podia bancar… Aconteceu algo inesperado. Observe com atenção!

Naquela rua de terra vermelha, quintal grande com várias árvores ao redor, havia uma velha casa de madeira, pintada de cor-de-rosa, mas vou adiantando, nada naquela casa era “cor-de-rosa”… cinza seria a cor que definia aquele lugar.

A mulher distraída abriu a carta, só leu o primeiro nome… estava endereçada à sua irmã (pensou), talvez fosse algo urgente (se precipitou). A irmã morava em outro Estado e ambas não tinham telefone… Abriu a carta.

Como é inacreditável a quantidade de situações extraordinárias que chegam até nós, quando menos esperamos… Estamos tão submersos em nossos dias comuns que levamos um baita susto, quando nos deparamos com algo que vem perturbar a nossa paz, mesmo que não seja necessariamente uma “paz”. O que parece ruim, pode piorar, meu bem. Meu conselho, não pague para ver!

Foi o que aconteceu com aquela pobre mulher.

Ela abriu a carta e ao desdobrá-la viu o dinheiro caindo no chão. Era muito dinheiro para alguém que estava constantemente sendo pressionada pela presença e a cara feia da Sra. Escassez.

Estranho’, pensou. A medida que iniciou a leitura daquela carta, era possível ver o rosto daquela bela mulher empalidecendo. Não seria possível que aquela carta chegasse em suas mãos. ‘Meu Deus!’, segurou o grito de terror.

Esteja preparado, muitas coisas chegarão em você. Muitas coisas chegarão em suas mãos. Coisas graves, mas esteja pronto para confrontar, seja lá o que aparentar. Abra os olhos e veja!

O desespero estava em seu olhar. Não estava acreditando. ‘Meu Deus! Por que essa carta caiu logo em minhas mãos?’, pensou apavorada. Logo ela, uma mulher tão cheia de problemas para resolver… Agora mais essa!… Aquela carta a deixou visivelmente perturbada. Teve que se sentar… colocou a carta sobre a mesa e olhou para o nada. Se perdeu em seus pensamentos. Respirou fundo e os olhos encheram de lágrimas. Eu acho que ela chorou. Ela era sem sombras de dúvidas, uma mulher sensível! Olhou para carta novamente. ‘Meu Deus! Não é possível’, pensou perplexa.

Gosto de pensar que Deus tem um senso de humor (digamos) que no mínimo, interessante. O que nos reserva o hoje? O que nos reserva amanhã? Não dá para pensar no amanhã, ele está aí…

A coitada da mulher, olhou ao redor por toda a sala, como se procurasse uma solução. A velha casa de madeira, fria por causa do inverno e todas as inseguranças do presente. Futuro? Não sei se ela pensava constantemente nele, sentia muito medo ao planejar. Olhou pela janela em direção daquele quintal e viu as folhas secas caindo da árvore de Sete-Copas, forrando por toda extensão o chão como um tapete volumoso e vermelho marrom escuro, (o que entristecia mais ainda o cenário para ela).

Pensou em tudo que a levara até ali. Pensou na sua família. Pensou em suas escolhas. Pensou no quanto nada estava no seu controle. Pensou na Vida que acontecia. Pensou nas consequências de suas decisões estúpidas e imaturas. Pensou no marido desempregado. Pensou nas brigas e nas contas a pagar. Pensou na comida que estava acabando. Pensou nos filhos pequenos e imaginou o quão feio era aquele mundo. Estremeceu…

O que será dos meus filhos nesse mundo, se nem eu posso protegê-los? O que será de meus filhos, se terão que fazer as suas próprias escolhas? … Se nem eu consegui acertar… Será que conseguirei criá-los direito?’

A sua filha mais velha, tinha nove anos e observa toda aquela cena da mãe… Ela pediu para ler a carta. ‘O que vai fazer, mãe?’, perguntou a menina.

Não sei, filha’ – disse a mãe mais para si mesma do que para a menina.

Estava claro que a carta não era para sua irmã, mas para uma outra pessoa com o primeiro nome idêntico. Provavelmente era para a vizinha que havia se mudado alguns meses e não morava mais naquela rua. Quem sabia o novo endereço? Aquela mulher sabia, mas se recusou a entregar a carta.

Qual o controle que tenho diante da Vida? Qual o controle que tenho diante da vida dos outros? Ela sentia que não poderia entregar aquela carta a verdadeira destinatária. ‘Não, eu não vou entregar! Não posso entregar!’

O que seria a coisa certa a fazer? Será que ela precisava se envolver? Talvez rasgasse a carta e deixasse para lá? Ela estava inquieta e visivelmente agitada. ‘E… esse dinheiro?’. Sentiu náuseas ao olhar para ele. Qual seria o valor dele?

A carta foi escrita por uma mulher (a remetente) que estava com muita raiva. O motivo era porque ela havia se desentendido com seu o irmão. Ao longo da carta, saltavam aos olhos palavras de ódio, ressentimento, ofensas e vingança. No final da carta havia uma solicitação, ela queria que a destinatária fizesse um ritual… um tipo de encantamento obscuro, velas e tudo mais. A remente estava encomendando a morte do próprio irmão e foi específica em sua solicitação. ‘Ele é caminhoneiro, desejo que ele morra em um acidente trágico de caminhão’. Aquele dinheiro era o pagamento pelo trabalho.

Você nunca vê tudo. Nunca ouve tudo. Sempre existirá algo novo e inesperado encarando você com deboche e intimidação. Demorou para cair a ficha, a mulher compreendeu a raiva da remetente, teve empatia por ela, mas se incomodou profundamente com o pedido… “a morte do irmão”…”a morte de um ser humano”. O que você faria? Com que autoridade a irmã poderia decidir sobre a vida ou morte do irmão ou de qualquer outra pessoa? Que poder a destinatária teria para executar a solicitação? Que poder aquela mulher que segurava a maldita carta teria para impedir (seja lá o que for)? Será que a vida daquele homem sem nome, estava nas mãos dessas três mulheres? A irmã que encomendou a morte dele? Uma mulher misteriosa que foi escolhida para executar o trabalho? E a terceira mulher? Por que ela entrou no meio caminho?

A carta está em cima da mesa. A mesma mesa que daqui uns dias faltará o alimento. O som é silêncio profundo, parece que até os pássaros decidiram calar.

Olhou novamente para a carta. Aquilo não estava certo! Respirou fundo, pegou um caderno e uma caneta… Ela decidiu interferir e escreveu uma carta para a remetente. Era uma mulher sensível e tinha uma fé temente a Deus (pequenina, dizia ela, mas tinha). Ela precisava intervir? Quem se importa com um homem sem nome e sem rosto? Ela se importava! Antes de tudo, ela dizia para si mesma que se importava com a vida que parecia estar em suas mãos. Não achava certo ser indiferente. Não achava certo tapar os olhos para algo tão grave. Não achava certo o mundo se ajoelhar e se intimidar diante do mal. Se o outro não atende as minhas expectativas, o que ele merece? Desprezo? Ódio? Ofensa? Intriga? Vingança? Morte? Não é difícil julgar quando a única coisa que vejo é só a minha dor. O homem podia ser culpado também, mas o sol é para todos.

Aquela mulher e mãe, sabia que não era esse o caminho que seus pais a ensinaram a trilhar e esse não era o caminho que ela desejava que seus filhos trilhassem um dia. Olhou para a menininha, sua filha de olhar inocente que a observava curiosa para ver o desfecho daquela situação extraordinária. Então, sem tirar os olhos da filhinha, orou em silêncio: ‘Deus, cuide dos meus filhos. Que eles se amem e se respeitem como irmãos e sejam capazes de se equilibrarem na Sua Justiça e na Sua Verdade. Dê coragem para eles sempre fazerem a coisa certa, mesmo que ninguém fique do lado deles’.

Me pergunto. Será que essa mulher e mãe em sua simplicidade, de fato acreditava que o ritual e o encantamento poderia funcionar e matar aquele homem? Ela poderia contar com a ideia de que a destinatária talvez pudesse recusar o pedido? Talvez ela tenha pensado tudo isso, mas em seu íntimo não queria arriscar. Estava decidida. Aquilo chegou em suas mãos. E se chegou em suas mãos, tem um motivo.

Será que existem acasos? A vida é cheia dessas surpresas. Seria um teste? Seria coincidência? E se Deus através do Universo alinhasse nossas vidas com vida de outras pessoas? Sei que Deus entrega em nossas mãos treinamentos, muitas vezes duros e aparentemente injustos para nós, mas se estivermos abertos, algo modificará em nós, no outro e consequentemente no mundo. Estar receptivo é o nosso efeito borboleta.

Como uma pessoa amadurece? Será que ela amadurece quando é colocada constantemente diante de confrontos? O que o sucesso e uma vida sem problemas te ensina? O que você aprende quando os confrontos, os problemas e fracassos batem a sua porta? Qual é a sua atitude quando a Vida lhe pede mais profundidade? Qual é a sua atitude quando Deus espera que você se entregue mais, em mundo que ninguém quer ser luz… em um mundo tão frio de amor e empatia? Qual é a sua atitude quando Deus permite que algo chegue até as suas mãos?

A irmã daquela bela mulher sempre dizia, ‘cada um tem que resolver seus próprios problemas. Cada um tem que assumir as suas próprias responsabilidades, mas se alguém te pedir ajuda ou se algo chegar nas suas mãos… Não seja indiferente. Lembre-se, nesses dois casos, você tem o dever moral de intervir… Tem o dever moral de ajudar’.

Então, ela não precisava buscar apoiadores, pois todas as respostas estavam dentro dela, refletidas em seus princípios e valores. Ela sabia o que era necessário fazer, a caligrafia não era bonita, havia muitos erros de ortografia e sua mão tremia ao escrever aquela resposta para a remetente. Mas ela sabia que aquela era a direção com clareza.

Dizem que as palavras têm grandes poderes para destruir ou edificar, para desanimar ou encorajar, para ferir ou curar. Aquela mulher não tinha consciência disso, mas era uma mulher muito intuitiva… Então, colocou o seu coração naquela carta e escreveu bondade, compaixão, perdão e amor. Ela plantou sementes de paz e esperança com suas palavras. Falou de um Deus que ela conhecia pouco, mas continuava buscando suas próprias respostas com a intenção de conhecê-Lo mais. Teve coragem e forças para oferecer uma nova perspectiva para aquela mulher tão amargurada e ferida. Ela promoveu o Bem, sem esperar recompensa, mesmo quando tudo ao seu redor desmoronava… quando tudo era pressão… quando tudo era dúvida… quando tudo era incerteza… Sua vida estava alí, diante dela, não haviam respostas para suas preocupações e tudo ainda estava acontecendo… ‘O futuro será melhor, essa é só mais uma fase e vai passar também’, pensou com brilho nos olhos e uma pontada de tristeza.

Talvez ela quisesse se convencer daquilo que acreditava? Talvez quisesse acreditar mais em Deus? Talvez se um dia, um dos seus filhos caíssem nessa armadilha da raiva e vingança, ela desejava que alguém intervisse com o Bem? Talvez ela queria que seus filhos fossem melhores para o mundo? Talvez quando alguém precisasse, independente de quem fosse essa pessoa, ela desejava que seus filhos fossem pacificadores e mensageiros do Bem? Ela não queria que seus filhos se parecessem com ela e o marido, mas se parecessem com o Deus Pai.

Ela poderia ter pensado tudo isso, ou não. Quem vai saber? Mas aquela lição foi uma semente no coração da menina que presenciava a atitude daquela mãe tão frágil e honesta. Independente do que te fizeram, ou das suas circunstâncias… você pode ser melhor! Pode agir melhor! Sempre pode escolher fazer direito. Como a uva ao ser espremida, produz o suco de uva e o vinho. Como a azeitona pressionada, produz azeite. Como o ipê que em seu alto nível de estresse, produz flores. Se suas palavras e atitudes fossem sementes que produzissem frutos, será que você poderia comê-los?

A carta foi endereçada para a remetente junto com o dinheiro que veio. O rosto da mulher estava em paz agora. Qual seria a recompensa dela? Não sei.

Quem saberá qual foi a reação da remetente (agora destinatária) ao ler aquela carta simples, modesta e reflexiva? Confusão? Dúvidas? Que valor teria para ela aquele dinheiro (agora novamente) em suas mãos? Qual é o valor de uma vida? Qual é o valor da sua vida? Qual é o valor da vida de qualquer ser humano? Qual o preço que você estaria disposto a pagar pelas consequências de decisões destruidoras e equivocadas?

Não houve nenhuma resposta pela carta que a bela mulher havia enviado a remetente magoada. Quem saberá o que aconteceu?

Sei que a mulher esperou o melhor, (eu vi seu olhar se perder pela janela ao terminar de colar o envelope). Em seguida, ela inclinou a cabeça, orou baixinho e no fim sorriu de leve. Mas a Vida é assim… Para cada atitude que tomamos, nem sempre a Vida nos dará todas as respostas que queremos. Nem sempre compreenderemos tudo. Nem sempre saberemos o que fazer quando algo chega até nós. Nem sempre presenciaremos todos os desfechos. Nem sempre saberemos se nossas sementes produziram ou não. Plante mesmo assim!! É melhor se arrepender de algo que se fez, do que conviver com a dúvida por não ter tentado agir direito, sabendo que em suas mãos estavam a solução, o alívio e a cura.

Qual será a nossa recompensa?

Uma vida que valeu a pena ser vivida de verdade, não porque alguém te disse o que você tinha que fazer, mas porque você fez aquilo que acreditava e isso não tem preço’.

Paula Gouveia

Áudio do Texto (Voz Paula Gouveia)


2 comentários sobre “A carta

  1. Senti um “IDE” esteja preparada,a qualquer momento, sua vida ou a vida de alguém vai mudar…sem avisos…uma exortação… PAULO usava a mesma linguagem,para alertar, para o crescimento, amadurecimento espiritual…ser exatamente aquilo que acredita…seu texto, despertou dentro de mim…a coragem,o calor de Cristo 🙏
    Maravilhoooooso 👏

    Curtido por 1 pessoa

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